segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ficção vs Realidade

Sempre fui uma pessoa de ter muitos planos.
Eu sabia a que horas acordaria, a que horas tomaria banho, a que horas tomaria o pequeno-almoço, a que horas sairia de casa, o que faria cada dia, onde jantaria, com quem estaria, a que horas regressaria a casa, a que horas tiraria a maquilhagem, a que hora veria televisão, a que horas voltaria para a cama.

Era assim todos os dias.

E esta mudança não foi diferente. Foi inesperada, foi um "atirar-me de cabeça" como nunca antes, mas assim que tomou forma, os planos entraram em acção. 

Em duas semanas planeei uma mudança para outro país, delegação de responsabilidades várias, arrendamentos de imóveis, procura de casa no país de chegada, fiz listas do que levar e do que deixar, do que comprar na nova casa, procurei imobiliárias, legislação de trabalho, emprego para o R.

E os nossos planos eram claros: em duas semanas mudaríamos para um pequeno apartamento, em que a renda não fosse muito elevada, dormiríamos num colchão no chão e penduraríamos a nossa roupa em cabides do IKEA até comprarmos a mobília branquinha que eu sempre sonhei (um móvel por mês), iríamos jantar fora sempre que não nos apetecesse cozinhar, reservaríamos os fins-de-semana para correr a Europa e aproveitar o facto de estarmos no centro dela para visitar tudo, iríamos visitar o Louvre de novo, iríamos a Portugal de 2 em 2 meses, só porque sim, aos fins-de-semana, iríamos a Londres de TGV, e a Paris, iríamos finalmente visitar Berlin, e o campo em Auschwitz, iríamos a todos os concertos e iríamos finalmente ver os Linkin Park ao vivo, iríamos ter poucos amigos e viver em função um do outro, eu iria ler, ler, ler, iríamos ao Luxemburgo jantar durante a semana e voltar no mesmo dia, iríamos voltar para Portugal (talvez Lisboa) depois de 2 ou 3 anos.

Que irónico pensar que alguma vez planeamos tudo isto...

A M. já vinha escondidinha dentro de mim e trocou-nos as voltas. O nosso pequeno apartamento teve que ser trocado por um de dois quartos, uma sala maior, com banheira na casa-de-banho. A renda quase que dobrou de preço e escolhemos um sítio "longe do centro e da confusão". Ainda dormimos quase 6 meses no colchão no chão e pendurámos as nossas roupas nos cabides do IKEA, mas não me soube tão bem...
A mobília não pode ser comprada porque as despesas já seriam mais que o antecipado e, por isso, veio de Portugal a da minha mãe, juntamente com todas as memórias... E que eu não escolhi.
Jantamos fora (quase) sempre que nos apetece, mas temos que decidir deixar a M. com os meus pais e ficar sempre com remorsos de não estar a ser bons pais, pais responsáveis. E ficamos lisos que nem carapaus porque fazemos "vida de rico".
Aos fins-de-semana só queremos descansar e temos que nos reger por horários de refeições, horários de sestas e preocupações se "ela já comeu, ela já dormiu? se não fica chata, se não, ninguém a aguenta".
Ainda não fomos a Londres. Ainda não visitei Paris, muito menos o Louvre de novo. Vamos a portugal de 6 em 6 meses, só para os avós acompanharem o desenvolvimento da M. Berlin fica a 8h de viagem, e é muito longe para irmos num fim-de-semana com a M. E também não podemos gastar um balúrdio só numa viagem de fim-de-semana porque precisamos de isto e daquilo para a M.
Não consigo sequer pensar em visitar Auschwitz ou ler algo sobre a 2ª Guerra Mundial. Não com um bebé nos braços.
Ainda não fomos a nenhum concerto. Nem vimos Linkin Park ao vivo.
Temo muitos amigos. E se isso é positivo, também nos distrai do nosso objectivo de "viver em função um do outro"... Só vamos ao Luxemburgo de mês a mês e sempre ao fim-de-semana...
Não sabemos quando (se é que algum dia) voltaremos a Portugal. 

Don't get me wrong. 
Não culpo a M. por nada disto (se bem que pode parecer).

Culpo-me a mim, aos meus planos, à minha vida antecipada, delineada, esboçada. E à frustração quando o esboço de que tanto gostávamos não corresponde ao desenho final.

E sim, quase sempre o desenho final, a masterpiece, é muito superior ao esboço. E também o é neste caso.
Mas nunca nos esqueceremos daquele esboço, da idealização, da imaginação...

3 comentários:

Jovem Atrapalhada disse...

Eu e o V. já vivemos juntos à quase dois anos, também tínhamos esses planos todos, mas entre "vida de rico" e de repente eu estou doente e em despesas médicas foram ordenados inteiros, este ano nem férias podemos passar... Pior! Nem sequer este mês nos podemos dar ao luxo de apanhar um autocarro ao Sábado (pois estávamos a tirar os dois a carta ao mesmo tempo, pagámos metade e ficámos com nenhuma) um simples bilhete de autocarro, umas sandes na geladeira e ir à praia que fica a meia hora de distância nos podemos dar ao "luxo"...

É bom fazer planos, desgostoso é vermos a desfazerem-se por entre os nossos dedos, como se de areia se tratasse...

Custa...

Mi♥ disse...

:( Isso é que não gosto nada! Espero sinceramente que possas melhorar rapidamente e que a vida vos sorria...
O melhor mesmo é não fazer planos, at all...!
Um beijinho querida ♥
Ps. Vi o teu blog, que desconhecia, e achei mesmo muita graça! :)

Jovem Atrapalhada disse...

Também desejo tudo de bom para esses lados...

Por estes está muito negro (até o tempo está cinzento para acompanhar a minha tristeza)...

Quanto ao meu blog, muito obrigada!
Quanto ao teu, está a ser uma "cura" para a minha alma...
Já não me sinto tão sozinha na minha tristeza depois de ler as tuas aventuras, desventuras e dia-a-dia...
Não pares de partilhar um pedacinho da tua alma, por favor... :)